segunda-feira, 21 de março de 2011

TENTANDO ACEITAR

Faz alguns anos que não posto aqui no blog. Na verdade ele sempre foi meio que um divã de analista, onde eu podia colocar para fora minhas angustias, incertezas, alegrias, conquistas e momentos de vida.

Muita coisa aconteceu desde a última postagem. Para mim, a mais traumatizante foi perder o meu pai. Sei que eu deveria pensar que foi melhor assim, pois nos últimos meses que antecederam a sua morte ele já estava perdendo a qualidade de vida e quando amamos muito alguém é complicado ver a pessoa com limitações. Mas o meu pai amava viver. E apesar de tudo que eu fiz, do quanto me empenhei em tentar fazê-lo mais feliz nos últimos tempos, ficou comigo uma sensação de que falhei no último dia, sabe? Ainda me pergunto: e "se eu tivesse feito isso" ou e "se eu tivesse feito aquilo". Entendo também que seja presunçoso da minha parte realmente acreditar que eu poderia alterar os desígnios de algo muito mais grandioso que eu e, afinal, todos nós aqui na terra começamos a morrer a partir do dia em que nascemos. Meus sentimentos alternam. Ás vezes sinto que eu fiz tudo, absolutamente tudo de melhor que estava ao meu alcance. Outras vezes me lembro do último dia de vida dele e fico com raiva de mim pensando se falhei de alguma forma. O que eu mais gostaria na verdade, era poder esquecer os últimos momentos, quando ele se sentiu mal naquele dia, quando os bombeiros chegaram e vi a lágrima saindo dos olhos dele, quando eu não briguei tudo que deveria no hospital. Acho que eu poderia ter cobrado mais, ter brigado mais com aquele enfermeira, ter questionado mais aquele médico. A cena do meu pai em casa, as últimas palavras dele, ainda estão tão nítidas na minha mente.

Dia 10 de março fez 8 meses que ele se foi e ainda estou sofrendo tanto. Não tem um único dia em que eu não lembre, em que eu não sinta saudade.

Até que há uns dois meses tomei a decisão de procurar uma psicóloga, e pedir ajuda para lidar com este luto, porquê sinto que não estou administrando muito bem.
Alie-se a isto o fato de que meu foco nos últimos 4 anos era o meu pai. E não, ele não me pediu isto, eu que talvez tivesse me agarrado ao fato dele estar doente para eu deixar de viver. Eu simplesmente deixei de sair, de namorar, de viajar e foi me atolando em problemas, sempre achando que era tudo em função do meu pai. Hoje talvez eu já esteja percebendo que não. Que eu queria apenas uma muleta, que em algum momento eu desisti de viver e optei por sobreviver.
O que ocorre agora é que não tenho mais motivos para não sair, nem viajar, nem viver (ok, problemas financeiros também podem minar as energias de qualquer humano), e entretanto eu continuo morta-viva. Qual é minha desculpa agora?

Engordei horrores nos últimos quatro anos também, estou sem nenhuma qualidade de vida e me sinto tão engessada! Nada do que eu começo eu consigo terminar. Auto boicote puro! Uma busca constante por relacionamentos à distância (alguém me diz se não é um jeito de fazer com que as coisas não aconteçam em minha vida?).

Faz 4 meses que me mudei da nossa casa, porquê esta complicado permanecer lá com tantas lembranças e não fossem também os cuidados dos vizinhos que me conhecem desde criança, eu não teria conseguido sair daquela depressão. Realmente na nova casa melhorei o astral e senti que posso recomeçar. Claro que ainda dou um passo para frente e dois para trás de vez em quando, mas pele menos agora faço tudo com uma maior observação, tentando trazer à razão as minhas ações para conseguir perceber quando estou me boicotando ou não.

Também estou tentando aceitar e já aceitando muito melhor que quando amamos muito alguém, temos que querer que esta pessoas esteja bem e feliz. De que adianta estar aqui entre nós sofrendo, doente, sentindo dores e vivenciando a proximidade da morte todos os dias? Não, o meu pai não merecia permanecer aqui nestas condições. Ele era muito sábio, bebia a vida com ânsia, com alegria. De qualquer forma ele permanece aqui comigo, porquê cada traço da minha personalidade tem um pouquinho dele, cada plano de vida meu tem um pouco da sabedoria que ele soube me passar. Quero agora, com todo o meu coração, que ele simplesmente fique bem onde estiver, dando aos que estiverem por lá, a oportunidade de conviver com alguém tão especial.

Está mais perceptível para mim que a pior morte é a de tudo que morre dentro de nós enquanto vivemos. E eu tive um bom professor e quero amar a vida de novo.

"Nunca se esconda atrás de uma limitação sua para encarar a vida e as pessoas" (Meu pai, José Mariano Gonçalves)

Fundo Musical: Vento no Litoral | Pais e Filhos (Legião Urbana)




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